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O ciclo de um caminho desabrochado

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  • por em 28 de outubro de 2016

“Versos de um Crime”

Sou fã de filmes baseados em fatos reais… E gosto assim, desses longas que te fazem pensar, que te instigam a buscar mais sobre o tema, a ler mais sobre o que aconteceu naquela época e tal. É inspirador pesquisar algo histórico. Estimulante, convidativo, bucólico.

Assisti a “Versos de um Crime” (2013) na Netflix, e logo na primeira cena a produção já mostra a que veio. Um assassinato acontece, e, nesses primeiros takes, um jovem sem camisa carrega um homem ensanguentado no meio de um rio. Tudo isso em retrocesso, como se ele já o tivesse soltado e matado; mas é como se o tempo estivesse sendo rebobinado sob esta narração: “Algumas coisas, uma vez que você as amou, tornam-se suas para sempre. Você tenta abrir mão delas, elas dão uma volta e retornam para você. Tornam-se parte do que você é”.

Ou seja, não há nada mais provocativo que um flashback logo de cara. E é isso que o diretor John Krokidas alimenta: um instigante convite para uma história densa que acaba de começar.

Na trama passada em 1944, Allen Ginsberg (Daniel Radcliffe, o eterno garotinho Harry Potter, que cresceu e só anda fazendo projetos intensos por aí) sai da casa dos pais rumo à universidade de Columbia, em Nova York, precisando lidar com o sentimento de culpa por ter abandonado sua mãe (Jennifer Jason Leigh). Seu sonho é tornar-se um escritor, mas logo sente-se incomodado pelo modelo “certinho” de poesia que o curso ensina. Não demora muito para que Allen conheça Lucien Carr (Dane DeHaan), um jovem provocador que o apresenta ao mundo da contracultura e por quem se apaixona. Quando David Kammerer (Michael C. Hall), um homem também apaixonado – e alucinado – por Lucien, é encontrado morto, Lucien e seus amigos Jack Kerouac (Jack Huston) e William Burroughs (Ben Foster) tornam-se os principais suspeitos.

É nesses nomes que me apeguei e fiz a pesquisa retórica. Como se não bastasse ser uma história tentadora, os seus personagens são nomes como Allen Ginsberg, William Burroughs e até Jack Kerouac, do ótimo livro “On The Road”, grandes escritores norte-americanos do pós-segunda Guerra, responsáveis pelo pontapé inicial da geração Beat, com métodos de escrita inovadores, textos e atitudes extremistas e libertários para aquela época. Entre esse radicalismo todo, provado em ousadia e coragem em posturas à frente de seu tempo, esse grupo de grandes homens torna-se não só cativante pela presença histórica, mas também pelas mensagens que transmitiram. A de “Versos de um Crime” é nítida e incrivelmente sustentável até para os dias de hoje.

Em certo momento do filme, Allen recita um de seus primeiros textos, para o deleite não só de Lu e Jack, mas de qualquer espectador atento. “Cuidado. Você não está no país das maravilhas. Ouvi a loucura estranha crescendo há tempos na sua alma. Mas você é afortunado na sua ignorância, no seu isolamento. Você, que sofreu, descobre onde o amor se esconde. Dê, compartilhe, perca. Senão morremos sem desabrochar”.

Realmente, não dá pra vir ao mundo a passeio. Dentro de cada insana loucura interior há sempre o melhor tato sensato, mostrando que devemos, sim, nos perder, mas buscando o caminho certo a percorrer. Esse “caminho certo” pode até ser o errado. Não usamos lentes corretivas a todo instante. No entanto, o mínimo é mais. O importante é o movimento. Se você vai pagar no futuro por algo que amou no passado e que o tornou parte de você, para o bem ou para o mal, sem chance de retorno, isso não importa. No ciclo da vida de qualquer um – seja de anônimos leitores ou de escritores intelectuais da década de 40 –, o que vale é sofrer, amar, chorar, sorrir, dar, receber, compartilhar, se ensanguentar, se perder e sempre, eu disse sempre, renascer… para que ocorra um eterno desabrochar.

Um Abraço,

luiz-cabral-

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.